21 de abril de 2015

PILARES ENTREVISTA - LUKAS OLIVER - PARTE I

Entrevista elaborada por Maria Badulaques.

Como anunciado, trazemos para essa semana cheia de aromas e sabores distintos, uma entrevista com Lukas Oliver. 

"Peço por gentileza que todos que tenham algo negativo ou positivo a dizer sobre o texto se dirija a mim, Lukas Oliver
Isso irá contribuir muito para o meu crescimento como profissional e como humano. Se considera que errei em algum ponto, aponte-me o erro e nos dê a possibilidade de uma discussão saudável sobre as questões com o fim de crescimento. 
Estou em constante mudança e disposto a tal. Grato. Namastê." (Lukas


"Eu apenas desisti dos padrões, das pessoas que querem encaixotar sua liberdade, das supostas divas(os) da dança, dos ditos "pioneiros", dos conceitos já criados neste meio, desisti de carregar brigas das pessoas em minha trajetória mesmo não escolhendo isso, desisti de ter que medir o que dizer, de tentar me moldar para agradar o outro."  Você mencionou isto recentemente, então sem medidas... como você analisa o cenário nacional de Tribal? Desequilíbrio e egoísmo, estas foram as palavras que para mim se encaixaram analisando o que observo no cenário nacional de Tribal

Em 05 curtos e ao mesmo tempo longos anos de carreira, creio que passei por todas as características que constituem tal cenário e muitas delas influenciaram em minha carreira. 

O Tribal, no geral, está sendo muito bem aceito no Brasil, tenho visto pessoas de outros estilos de dança migrarem para o estilo Tribal ou  qualquer uma de suas ramificações. 

Um dos principais objetivos de tal migração, é a sensação de total alegria e satisfação que o estilo proporciona, tanto fisicamente quanto intelectualmente.   A liberdade de expressão contribui muito e enriquece o estilo além do seu conceito principal, a união. 

Tais características fizeram também com que eu apaixonasse pelo estilo. O grande problema que notei é quando você se torna um profissional da área, a visão de tal mundo muda completamente. 

Digamos que a princípio a paixão principal é o estilo e suas características, mas quando comecei a ter contato com o lado "profissional" , me perguntava várias vezes se estava realmente dentro do estilo o qual apaixonei e escolhi como profissão para minha vida. Bom, vamos lá!  Vou explicar de forma direta o que vi, o que discordo e o que acho que pode contribuir para o crescimento do estilo, do profissional e do espírito humano: 

1. Síndrome do Pioneirismo - Quando falo sobre a síndrome do pioneirismo, me refiro ao fato de quando assumimos o posto que somos os primeiros a fazer algo, seja conceitual ou físico e abusamos do posto para efetuar um ato com intuito de demonstrar que é melhor ou mais importante que o outro.

Acredito que ser o primeiro em algo é sim um fator o qual devemos ter orgulho e respeito aqueles que são. Na maioria das vezes são pessoas/profissionais que dedicam a vida, no caso do tribal, para que o estilo cresça no nosso país, mas tal posto não dá direito ao profissional pioneiro a menosprezar aqueles que conheceram ou adentraram o estilo após, ou se orgulhar a tal ponto de querer que todos "digam amém" a tudo que é ditado pelo pioneiro. Fazer isso seria ir contra o princípio o qual é pregado: união e igualdade.

Seria uma ato de arrogância e desrespeito não somente com quem é menosprezado, mas consigo mesmo e com A DANÇA. 
imagens escolhidas por Lukas
2. Quantidade de tempo no meio profissional como fator de total qualidade e endeusamento - Neste caso a pessoa/profissional descredibiliza e menospreza aqueles que tem uma quantidade de tempo menor que a dela, acreditando que o que tem pouco tempo não é capaz de chegar ou estar ao nível da mesma. 

O tempo, para mim, é um fator o qual contribui muito em qualidade técnica, conceitual, física e mental, se ele for aproveitado com sabedoria, empenho, treino e pesquisas. 

Respeitar aquele que está a mais tempo no meio é o mínimo que procuro fazer, creio que temos muito o que aprender com a trajetória traçada  destes que estão a tempos empenhando ao estilo. Mas o fato de olhar para uma pessoa que tem 70 anos de carreira e acreditar que nunca conseguirá dançar como ela, seria colocar um obstáculo sem mesmo tentar. Já tive alunas que em muito pouco tempo aprenderam o que eu demorei muito mais para aprender e tive que abrir as portas e as janelas para elas verem outros horizontes em busca de suas próprias possibilidades, isso não foi um fator que me fez ficar triste, mas me fez sim sentir orgulho. 

Eu ouso dizer que existem pessoas com 1 ano de dança com qualidade técnica tão boa quanto ou melhor que profissionais com 30 anos de carreira. 
Pensar que é melhor que o outro ou que tem direito de menosprezar ou descredibilizar o outro porque tem mais tempo em seu currículo, para mim seria demonstrar que em longos anos, não houve aprendizado algum. 

3. Brigas ou desentendimentos que são repassados para os que adentram ao estilo - Muitas pessoas se desentendem, isso é normal, é humano. Acontece muitas vezes pois os indivíduos não concordam com os conceitos uns dos outros, mas não só deixam de concordar, como desrespeitam a opinião do outro e ai acontecem as brigas. 

Para mim, o que é pior deste processo de desentendimento, é levar este por toda eternidade e repassar tal desentendimento aos que adentram o estilo. 

Já aconteceu comigo de fulana achar que sou como beutrana, porque fiz aulas com a beutrana. Também já aconteceu de alunas de meu workshop se desentenderem, porque uma era de uma escola e a outra era da escola "rival". 
Claro que isso não acontece porque elas realmente tem algo uma contra a outra, mas porque certo dia os donos dos estabelecimento se desentenderam e repassaram para as matriculadas que tal escola é rival e que não se pode nem cumprimentar quem é da outra. 

E mais uma vez a união deixa de ser um dos principais fatores de alegria do estilo, para dar lugar aos desentendimentos, picuinhas e criação de panelas. 

4. Criação de panelas - Por consequência dos desentendimentos e por estes repassarem aos "herdeiros", começaram a separar grupos. Separar em grupos é natural, afins com afins e todos ficam de bem. 

Este era tal objetivo , creio eu, do estilo. Todos somos da mesma tribo, amamos e respeitamos uns ao outros.  Mentira! 

O objetivo se perdeu quando separaram tais grupos com conceitos egoístas e um tenta "destruir" o outro. 

A frase se tornou: Todos somos da mesma tribo, amamos e respeitamos a todos que estejam de acordo com tudo aquilo que eu falar, fazer ou ser. 

Junte-se a nossa tribo!!!! Nãoooo, Junte-se a nossa tribo!!!! Você tem que escolher um lado!!!!! Ou essa ou aquela. Não fale com ele, ele não é da nossa tribo. 

Mentirosaaaaa!!! Tudo que a tribo deles prega é mentira!!!!! Tudo que elas pregam é mentira!!! Acreditem mim. Ele brigou comigo a culpa é dela!! Não a culpa é dele foi ele que brigou!!! 

Me pergunto sempre: Será que algum dia teremos um evento no Brasil como Tribal Fest??? Ou simplesmente: Será que teremos algum dia no Brasil um evento que una todos profissionais e afins do estilo sem exceção. Amando e respeitando uns aos outros, respeitando as diferenças físicas e conceituais. Com o objetivo de vivermos em harmonia para um crescimento conjunto? 
Aplico essas mesmas perguntas à vida. 

5. Viagens ao exterior e aulas com profissionais do exterior como fator de total qualidade - Um conceito que rege a sociedade no geral, é que sempre o jardim do outro está mais verde e florido que o nosso. E este conceito se aplica para a dança também.

Existem muitos profissionais no exterior com muita qualidade e outros com nem tanta, porém não faz diferença sendo do exterior, tá valendo. 

No Brasil, por sinal, já fomos elogiados pela nossa qualidade técnica, autêntica e expressiva no Tribal. Profissionais se destacam no Brasil e vão para o mundo. Porém lanço a pergunta: Se estiver em um evento uma profissional do exterior e outra nacional, com sinceridade qual seria a prioridade? 

Ou seja, há uma grande valorização não pelo que o profissional conquista ou pelo que sua arte é em si, mas simplesmente por não ser do nosso país. 

E o problema começa quando ocorre uma desvalorização com aqueles que não estudaram com internacionais ou não foram para fora do país. 

A pessoa passa a ser considerada de "baixa qualidade" pois ela não fez 30 workhops internacionais ou não estava presente no evento Hlkjandfo do Alaska.
E neste processo nasce mais um conceito: Profissional bom, tecnicamente e conceitualmente, é aquele que estudou com internacionais.
De forma alguma estou desvalorizando os internacionais, mas simplesmente procurando olhar a vida sem binóculos por alguns minutos, pelo menos. 

Já dizia minha avó: "Ás vezes o ouro reluz na nossa frente, mas não o enxergamos" e a outra é "Nem tudo que reluz é ouro."

6. Conceitos, regras e padrões estabelecidos - Nossa vida é moldada por conceitos, regras ou padrões que muitas vezes não foram determinados por nós mesmos, donos de nossa própria vida. Ou seja, em termos não somos donos de nossa vida. 
Exemplo: Acorde um dia e vá ao mercado nu, simplesmente porque você quer e se sente bem nu. Acredito eu que será presa(o). 

Ou simplesmente use um chapéu de gnomo e vá ao mesmo mercado. Com certeza terão olhares estranhos. Ou diga que acredita em fadas para as pessoas e que vê espíritos.

Bom, em cada ambiente, cidade , estado, país há conceitos que moldam nossa vida, e falemos a verdade, queríamos mais liberdade. 

Esse foi um dos fatores que decidi dançar. Vi que era uma oportunidade de me expressar e ser como realmente gostaria de ser. Acredito que este seja um dos objetivos de muitos que escolhem a dança ou algo artístico para a vida. Sempre aprendi que dança e arte são liberdade e acredito muito nisso, porém não foi o que encontrei. 

Aqueles que se diziam pioneiros, com maior quantidade de tempo, maior número de workshops ou viagens, criaram e criam, um mundo com padrões e regras, mas não com padrões e regras que fazem sentido, mas sim baseados nos seus próprios conceitos, gostos e estilos. Baseados em como gostariam que o mundo fosse para si mesmo. 

Nesta parte da música você tem que fazer o movimento x. 
Não pode colocar penas em roupa tribal. 
Fazer movimentos no solo, é vulgar. 

Todas as pessoas que estudam o Tribal Fusion, devem se formar em ATS

Não pode dançar música de umbanda no tribal. 
Dentre outras, são regras que já ouvi ou vieram me perguntar sobre. 

Bom, mesmos que estes conceitos fossem criados pelas criadoras do estilo eu ainda me pergunto: Alguém, alguma hora parou para pensar em deixar as pessoas livres para criar, adaptar, fazer, reler,  para conhecer, pesquisar e poder DANÇAR livremente?!

Particularmente, não tenho nada contra as regras ou padrões. Só acredito que temos que ter a liberdade de escolha em adapta-los em nossa vida ou não.
Quando me perguntam sobre o que acho sobre os padrões eu digo: Pergunte a si mesmo quais estão de acordo com você, siga-os , respeite as escolhas dos outros e seja feliz. 

7. "Pessoas boas " - Existem muitos que não estão dispostos a brigar, a escolher um lado, a venerar uma pessoa, estilo ou conceito, que procuram realmente valorizar e respeitar as qualidades do outro como o outro realmente é, amando e respeitando a todos e principalmente não perdendo tempo, mas valorizando o mesmo para enfim cumprir sua missão com a dança, sentindo bem consigo e com o outro, amando a si e a todos e pregando o real sentido da arte e da vida; A liberdade com amor e respeito. 

O que me entristece é que estes ofuscados pelo "lado negro da força"  desistem de lutar pelo todo, pela união e também vão, por medo, viver em seu mundo. 

São nestes pontos que vejo o desequilíbrio e o egoísmo, seja daqueles que querem ser exaltados, ou daqueles que se ofuscam em seu próprio mundo. 
imagens escolhidas por Lukas
Tirando todos estes pontos, que chamo de tranqueira do subconsciente da dança, pois é algo que não está presente no consciente de todos, vejo um Brasil cheio de possibilidades, cheios de talentos, pessoas que curam doenças através da dança, pessoas que curam, vejo um Brasil disposto a dizer não ao mal e notar o bem, vejo a técnica apurando a cada dia e apresentações incríveis, vejo possibilidade de um mundo em liberdade, com respeito e amor e o isto já acontece. 

Eu gostaria que o objetivo pilar do tribal fosse executado, que as pessoas se perdoassem, que todos buscassem sua liberdade e olhasse a liberdade dos outros com respeito, que todos tivessem direito de escolhas, que pudessem errar e que assim como em uma família, abraçarem e tentarem resolver tudo para que sempre ficassem de bem. 
Acredito que assim tanto o estilo quanto nós como seres humanos, evoluiríamos muito. Todos conseguiriam trabalhar, estudar e partilhar conhecimento uns com os outros e o conhecimento seria vasto e único. 

Como dizem: "O sol brilha para todos". 

Eu, Lukas, estou preparado e disposto a contribuir para a criação deste mundo. 

Comentários do Pilares (por Maria Badulaques): Essa foi só a primeira resposta... toma fôlego, reflita... entrevista em 3 partes. 

Entendi ser necessário fracionar para aproveitar esse momento de integração entre todas as tribos. 

As palavras de Lukas podem fazer sentido para muitos, outros podem discordar. Importante mesmo é o respeito que cabe em todos lugares. Sou advogada de formação, quando busquei a dança, a intenção era um ambiente totalmente diferente do jurídico, a surpresa é que não está muito longe do que vejo no fórum, em audiências, atrás da mesa do juiz... Lembro de Terencio, nada que é humano me é estranho... portanto somos o bem e o mal e qual prepondera e qual se apaga é escolha de cada um e muito senso crítico.

Vejo a dança como LIBERTAÇÃO... todos somos responsáveis, cada um com sua parcela, em tornar o ambiente saudável, aprazível e integrativo. Lembro quando me formei, minha primeira audiência, eu zero de experiência e de outro lado uma banca famosa da capital de São Paulo, mas o livro que estudei é igual para todo formando... portanto na hora do vamos ver, nem sempre a experiência prevalece... as vezes é questão de "insight"... feeling... e muito respeito ao próximo. Toda jornada começa do mesmo ponto de partida o ZERO e a partir daí um universo de possibilidades pode estar a espreita.

Até amanhã... xero forte no pulsante.

Maria

CONTATOhttps://www.facebook.com/lukasolivertribaldancer
                  http://www.lukasoliver.com/  
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