5 de novembro de 2014

162 - BARAKA

162 por Maria Carvalho - SEMANA 23

Caramba, lendo o depoimento de Baraka... Uma vida dedicada a dança e a forma como tudo terminou, mais uma vez me coloco em pensamentos que me convidam a divagar.

Aos 50 anos, em 1997 Baraka sofreu um atropelamento, em meio a uma viagem a França e nunca mais voltou a dançar, passou por uma recuperação muito demorada e complexa, dores, incapacidade de formar diálogos, e se viu sem sua companheira de uma existência inteira, a dança.

"Pareceu levar uma eternidade para ter uma idéia do meu cérebro a minha língua, e apenas tentar falar me drenava completamente. O francês que podia compreender, não podia processar. Percebi que algo estava errado com meu cérebro!"

Ser despejada da própria vida, deve ser assim que se sente a pessoa que perde "tudo", todas referências e necessita recomeçar de lugares totalmente desconhecidos. Observo algumas pessoas reclamando da vida, dos empecilhos disto e daquilo, mas quando os empecilhos já não existem continuam se escondendo atrás de qualquer outro subterfúgio para não viver o tempo que lhes resta da melhor maneira possível. A verdade é que se atirar de cara na vida requer coragem, afinal quedas, tropeços fazem parte das trajetórias, algumas alcançam o sucesso, outras parecem um sucessão infinita de erros, a maneira como encaramos essas provações é que nos distingue.

Outra verdade insofismável é que o sucesso no mundo da dança nem sempre está relacionado ao status de "bem-sucedido", há relatos e mais relatos de bailarinos fantásticos e duríssimos e há os mercenários das galáxias, tem pra todo gosto.

A vida de Baraka chegou a um ponto crucial em que ela se viu sem seus maiores tesouros (livros, discos... putz na minha casa, a pequena Marina já aprendeu que o maior tesouro que deixaremos são nossos livros), sem sua dança... Restou a gata e o filho e a memória de uma vida de aventuras, tentativas, acertos, erros... E uma nababesca vontade de deixar sua marca no mundo (da dança).

Mais uma vez vejo críticas ao American Tribal Style, que virou febre, todos queriam experimenta-lo (alias Carolena comenta sobre isso em uma entrevista, como ficou desmotivada com a maneira como as pessoas tratavam o estilo, iam em uma aula e noutra sumiam para formar seus próprios alunos - este comportamento sim, virou febre e é mais praticado que qualquer estilo de dança; o embromeichant dance), observo com muita clareza que as bailarinas formadas por Jamila que dançaram o folclórico do Oriente Médio tendem a não gostar da Tribal ditada por Miss Nericcio. Cada vez compreendo melhor os motivos, embora não concorde.

Que os relatos de Baraka possam inspirar você!
Vamo que vamo, xeros.
 
Imagens:
Baraka com trajes da Tunisia no Renaissance Faire de 1995
Baraka com o Hahbi´ru em 1995 (há duas fotos dela com o grupo)
Um primeiro grupo, cujo nome é esquecido... lá pelos anos de 1976

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